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A morte está presente – Tatiana Munhoz


2 de dezembro de 2019 l Atualizada em - 2 de dezembro de 2019 às 11:39

Se existe um mistério que gera dúvida na face da Terra e que não olha gênero, posição social, financeira, idade, religião ou raça é a morte e o que vem depois dela. O fim de tudo o que conhecemos ou o início de algo que é grande demais para a nossa mente limitada? Infelizmente, nós seres humanos, dotados de altíssima capacidade de aprendizagem, percepção, observação e liderança, somos colocados numa situação de extrema incompetência na missão de preveni-la.

A história relata que, antes de 1968, a morte em muitos hospitais era definida como o encerramento das funções vitais, que, basicamente, se constituíam em respiração e pulsação. Com o avanço da tecnologia e a habilidade de prolongar a vida de pacientes ligados a aparelhos, surgiu um novo critério desenvolvido por Harvard – a morte cerebral.

Tendo essas duas definições em mente, avaliamos que os protocolos hospitalares nos dizem que a morte é isso e pronto! Nada de sentimento envolvido, famílias devastadas, sonhos encurtados, esperanças destruídas. Como alguns dizem: “isso faz parte”.

Existe uma frase que diz: “todos morrem mas nem todos vivem” , William Sachs Wallace.

Quantos de nós nos submetemos a relacionamentos tóxicos, alimentação errônea, nociva e, sem perceber, criamos hábitos de destruição crônica através de nossas desculpas, para não encararmos as situações de forma mais positiva?

Tic tac, tic tac, o relógio da vida está em giro a todo momento. O triste é saber que, muitas vezes, ficamos mais chocados com as histórias de morte que vemos na televisão, do que com aquela pessoa próxima que sabemos que está morrendo aos poucos, por inúmeros motivos disfuncionais, e não fazemos nada.

A ciência diz que pessoas diagnosticadas com depressão, bipolaridade ou outro tipo de doença mental, mostram sintomas onde seus pensamentos são absorvidos pela ideia de morte e como esta seria. O que eu acho interessante é que, depois que perdemos alguém, passamos pelo nosso protocolo interno pessoal. Tiramos o tempo necessário para ficar com o corpo, observando sua posição, suas características físicas, relembrando suas falas e emoções. Esse tempo pode demorar algumas horas, até que os procedimentos finais de despedida sejam efetuados.

Com o passar dos anos e a expectativa de vida aumentando e nos colocando como a geração com a maior longevidade da história humana, uma grande inverdade também cresce, ou seja, de que vale dias acrescentados nas nossas vidas, se não vida for acrescentada em nossos dias.

No Japão, um dos países mais conhecidos por sua longevidade, o número de pessoas que morrem sozinhas dentro de suas próprias casas tem gerado uma nova indústria: empresas de serviço de remoção de corpos e limpeza das casas, que serão devolvidas aos proprietários.

A morte é um divórcio, é a palavra errada na hora imprópria, é a falta de carinho quando era preciso, é o olhar da razão ao invés da compaixão, é a ignorância e o egoísmo ocupando o lugar da humildade e cumplicidade.

O que nos falta é enxergarmos a cada manhã o privilégio da vida e a reverência à morte, subjugando nela toda nossa altivez e presunção, vivendo de forma simples e objetiva, exercendo nosso principal legado que é amar ao próximo. Pois do pó viemos e ao pó vamos voltar. Melhor do que deixar dinheiro é deixar saudades.

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