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Computadores e serviços ecossistêmicos – Reuber Brandão


12 de janeiro de 2020 l Atualizada em - 10 de janeiro de 2020 às 16:05

Olhe com atenção para o aparelho que você tem em frente ao seu rosto. Seja ele um notebook ou um celular, ele possui diversas capacidades, extremamente valorizadas por você. Este equipamento permite que você veja fotos, se conecte com a rede mundial de computadores, assista a centenas de filmes, que você ouça suas músicas preferidas, receba notícias, mantenha contato com pessoas distantes. Por ele, você se alegra, se inspira, se manifesta, se entristece, se apaixona. Certamente, não é apenas uma máquina. É algo mais, ao qual você se apega fortemente.

Agora, imagine que você desmonte, com zelo, minúcia e cuidado, o seu equipamento, peça por peça. Você pega todos os componentes – do parafuso mais ordinário ao processador mais complexo – e coloca cada uma dessas peças em uma caixa. Agora, você olha para a caixa com atenção. Você não tem mais acesso à internet, não escuta músicas, não recebe a ligação de pessoas queridas. Apesar de todas as peças estarem ali, definitivamente, você não tem um computador ou smartphone.

O som, a imagem, a luz, o processamento, a conectividade e diversas outras funções executadas são propriedades emergentes de seu sistema computacional. Propriedades emergentes surgem como resultado da interação de diferentes partes de sistemas complexos. Elas nos mostram a importância da interação entre os diferentes componentes do sistema, pois o resultado dessa interação é maior que a simples soma das partes.

Agora, imaginemos que, por alguma razão, você resolva eliminar algumas peças de seu computador. Tirando alguns dos parafusos que seguram a carenagem, pouca coisa acontece. Dependendo da quantidade de peças que você remove e do que você retira, ele já apresenta problemas. Assim como computadores, os ecossistemas também dependem da estrutura, função e composição de seus componentes para produzirem suas propriedades emergentes.

Diversos estudos têm se ocupado em mensurar a escala de grandeza e a valorar serviços ecossistêmicos tais como a polinização, a produção de solo, a infiltração e evaporação de água, o controle de pragas. No entanto, diversas pessoas que eventualmente leem a palavra “polinização” não percebem a real dimensão dessa propriedade dos ecossistemas. A polinização envolve a atividade e o complexo ajuste entre diversas espécies de aves, morcegos, insetos e plantas. Segundo um relatório produzido pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviço Ecossistêmicos, apenas a atuação dos polinizadores geraram para a agricultura nacional mais de R$ 40 bilhões em 2018.

O fato de um computador incompleto ligar quando colocado na tomada não significa que ele vá funcionar a contento. Da mesma forma, é comum ouvirmos pessoas equivocadas dizerem que os ecossistemas naturais com os quais têm contato estão funcionando pela presença de alguns elementos naturais. Você pode chegar em um ambiente e ver plantas e animais e achar que a natureza está em “equilíbrio”, quando os componentes que você enxerga são espécies invasoras em um ambiente degradado ou apenas os últimos indivíduos de uma população sofrendo constante declínio populacional em um ecossistema esquálido.

Humanos são conhecidos pela capacidade de adaptação a diferentes condições. Vejamos como iremos nos adaptar à perda das propriedades emergentes sobre as quais construímos nossos ecossistemas artificiais.

Reuber Brandão Doutor em Ecologia

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