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Crônica de uma cidade: “A Janela” – Dimas Junior


28 de outubro de 2019 l Atualizada em - 28 de outubro de 2019 às 10:22

Curto os dias. Para mim, nunca houve tempo que não desejasse abrir minha janela e ver a cidade. Quando amanhece, em todas as manhãs, a constatação é de um vazio silencioso que se instalava dentro de mim. Acho que o mundo lá fora tem alguma coisa a ver comigo, com o meu íntimo. O coração quase sempre se envolve e é como se ele dissesse que é preciso aprender e olhar o mundo. Comecei por adivinhar que sofrerei por causa desse meu jeito, é uma questão de tempo. Pusera-me a perguntar sobre as pessoas felizes e mais, sobre aquelas que têm coisas boas a oferecer, mas que se servem dolosamente das oportunidades que entram em meus caminhos. O mundo nunca me agradou, há erros e poucos acertos nas estruturas, a maioria das pessoas mente descaradamente sem qualquer escrúpulo e remorso, e o fazem sem pestanejar.

O amor como sentimento divino está à míngua, e na maioria das vezes acaba exigindo mais de você do que pode oferecer. Alguns homens, os mais discretos e de poucas palavras são amplamente observados pelo saber que dominam. Eu falo da alma, dos sentimentos, dos anseios, das crenças, dos medos e do local onde tudo está alojado. Daria muito para saber se alguma coisa da qual sonhei ainda está por lá, aguardando acontecer, uma ideia, uma vontade, uma agonia ou êxtase. Mas o que é perguntar? Que entender é quase sempre muito limitado; que as coisas precisam de um sentido; que é possível sonhar o que quiser; ser e desejar a felicidade de tornar a vida mais fácil de vivê-la. Não consigo ver solidariedade das ruas, nem o desprezo, as pessoas não fazem muito bem quando tiram pedaços uns dos outros no prazer de uma companhia, e fazem isso por nada. A vida humana não é apenas uma ilusão, nos vivemos para enganar e iludir, porque ninguém deseja ouvir que lhe digam a verdade; Mas não importa, aliás, nada importa quando se sabe que não se pode ficar parado.

A janela dá a dimensão exata da rua, inspira-me a recomeçar e não importa onde parei e se sofri nesse tempo, mas permite compreender que vivi um aprendizado. Em relacionamentos aprendi que não se deve deixar passar despercebido o que acontece diante de nossos olhos, aprendemos alguma coisa, uma forma de agir, uma forma de se comportar, mas aprender da pior forma é aprender errado. Vivi e passei provações em muitas ocasiões; vi a solidão de perto e senti o aperto no coração. Busquei minhas forças e percebi que precisava voltar à vida. É verdade, somos retirantes e fugimos dos mesmos problemas, alimentando os mesmos ideais sem nunca resolver o que realmente nos aflige: Afinal o que é a vida? Não posso conceber que a força de uma pessoa chegue a ponto de levar um tipo de vida e continuar na mesma, o que na realidade ela nunca o será. Somos frágeis e temos muito defeitos e isso não é bom. Não se sabe qual é o principal defeito que temos, mas por uma questão muito lógica, fazemos de tudo para enganar a nós e nos punimos por falta de coragem em admitir isso. Do momento em que me enclausurei dali em diante, perdi o interesse pelas melhores coisas da vida. E fiquei assim sem qualquer desejo de me adaptar, inerte, sem qualquer desejo de lutar e vencer as minhas dificuldades e caminhar numa direção que me esclarecesse e porque a vida é mais que sonhos. Sei que tenho uma ligação com o sentido maior da vida e por consequência, a minhas forças foram mantidas, e em minha cabeça por onde circulavam ondas cerebrais estranhas, caminhava a passos largos para uma vida amoral. Eu não acreditava em Deus e não havia meios de jurar por Ele porque o meu jeito de viver havia sacrificado essa parte, criando uma aberração, a comodidade da minha alma.

O desejo seguir em frente, de sentir a vontade de respirar fundo e sentir no ar, o gosto das coisas. A vida não quer de nós apenas atitudes corretas, ela de algum modo quer indicar que haja uma liberdade de viver e sentir cada momento. Lentamente percebemos o que valeu na vida, o que devemos guardar até o fim de nossos dias e o que não deveria ter sido feito nela. Não há lugar onde esconder nossa intimidade, nossa verdade.

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